Ricardo Acto: “O Rock in Rio Lisboa continua a reinventar-se edição após edição”

Entrevista

11-06-2026

# tags: Festivais , Eventos

Com mais de 20 anos de experiência na organização do Rock in Rio Lisboa, Ricardo Acto tem acompanhado de perto a evolução de um festival que já recebeu mais de três milhões de visitantes em Portugal.

Ao longo de mais de duas décadas de história, o Rock in Rio Lisboa tem vindo a crescer em dimensão, complexidade e impacto. Ricardo Acto, atualmente Chief Operating Office (COO) da Rock World , integra a equipa desde 2006, e recorda que a estrutura de equipa e produção tem evoluído de acordo com o aumento da exigência. “Entrei em 2006, ainda recém-formado em Engenharia Civil, e desde então a equipa permanente tem vindo a crescer”, explica. A continuidade de muitos profissionais entre edições tem sido igualmente determinante para consolidar conhecimento e experiência. “A isso junta-se também o facto de, a cada edição, regressarem muitas pessoas que já trabalharam em anos anteriores, o que reforça a experiência acumulada. Esse ciclo de continuidade e aprendizagem faz com que a própria estrutura evolua de forma constante.”

Em 2026, o Rock in Rio Lisboa regressa ao Parque Papa Francisco para a sua segunda edição naquele espaço, contando com uma equipa reforçada para responder à dimensão que o evento atingiu após dez edições e mais de três milhões de visitantes recebidos em Portugal.

O contexto atual apresenta desafios que atravessam toda a indústria dos eventos. “Os desafios após a pandemia são transversais: aumento de custos, dificuldades ao nível do talento, uma vez que muita gente saiu da indústria dos eventos”, refere Ricardo Acto. Ao mesmo tempo, a concorrência intensificou-se, impulsionada pela multiplicação da oferta de espetáculos ao vivo. No entanto, disso, a procura continua elevada. “O público está muito presente e procura cada vez mais esta experiência. Após a pandemia houve um crescimento forte, que se esperava que diminuísse, mas isso ainda não aconteceu”, observa.

Melhor experiência para o público

Quando se trata de transformar um recinto numa Cidade do Rock capaz de receber dezenas de milhares de pessoas, o principal desafio passa pela melhoria contínua da experiência do público. “Os maiores desafios para transformar o recinto passam sempre melhorar o conforto do público”, afirma. Entre cada edição, a equipa analisa oportunidades de melhoria e procura responder às expectativas de todos os intervenientes. “Esse é sempre o desafio, é pensar, entre edições, como melhoramos a experiência do consumidor e todas as entidades envolvidas no festival. Respondendo às expectativas das marcas, dos artistas e dos restantes stakeholders.”

A edição de 2026 trará novos desafios operacionais, com uma expansão significativa do recinto. “Vamos voltar com uma Cidade do Rock maior, com mais 25 mil metros quadrados, novas áreas e serviços, o que naturalmente traz também novos desafios operacionais, e um aumento no número de pessoas que vamos receber.”

Nos dias que antecedem a abertura de portas, a experiência acumulada ajuda a lidar com os potenciais imprevistos. “Podem sempre surgir pequenos imprevistos, mas com a experiência da equipa isso já é visto como parte natural do processo”, explica. Ainda assim, existe um sentimento que permanece constante. “O que mais pesa nesses dias é a ansiedade de que tudo corra bem, de entregar uma boa experiência e de ver as pessoas a saírem felizes, de ver os sorrisos.”

Muito do trabalho essencial para o sucesso do festival passa despercebido ao público. Gestão de horários, abastecimentos, segurança, planos de contingência e gestão de fluxos são apenas alguns exemplos. “Há muitos aspetos que não são visíveis para o público e que são de grande importância”, sublinha.

Ricardo Acto recorda o sistema de “stop and go” implementado há dois anos para gerir as saídas do recinto. “Aplicámos planos de contingência na saída com o sistema stop and go, para garantir um fluxo contínuo de saída e evitar bloqueios.” A medida permitiu distribuir o público pelas várias alternativas de transporte e acessos disponíveis, assegurando uma saída segura e organizada.

Sustentabilidade valorizada

Também a relação com os patrocinadores evoluiu. “Captar patrocínios está mais exigente. Os patrocinadores tornaram-se mais exigentes e já não basta estar associado ao evento”, afirma. Num contexto em que as marcas dispõem de múltiplos canais para chegar ao consumidor, a presença em festivais exige experiências mais criativas e relevantes. “Estar na música e nos festivais continua a ser uma forma relevante de ligação ao público através da experiência, mas isso obriga a respostas mais criativas.”

Ainda assim, o COO da Rock World considera que a essência do desafio permanece a mesma. “Sempre foi um desafio convencer os sponsors de que temos o melhor produto.” Com o crescimento do entretenimento ao vivo, a concorrência aumentou, mas o objetivo continua a ser garantir a satisfação dos parceiros. “No final, o que importa é que, tal como o público, eles sejam satisfeitos e sorridentes.”

A sustentabilidade é hoje uma dimensão valorizada pelos festivaleiros e pelas comunidades envolventes. Segundo o responsável, o reconhecimento resulta de um trabalho consistente que vai desde a redução de resíduos e a utilização de copos reutilizáveis até à promoção do transporte público, acessibilidade e inclusão. A estratégia procura igualmente prolongar o impacto positivo para além dos dias do evento, através de iniciativas sociais e ambientais que incluem projetos de reflorestação e apoio a hospitais e instituições sociais.

A tecnologia assume igualmente um papel central na operação do festival. “A tecnologia tem um papel fulcral, tanto na comunicação e no impacto mediático como em toda a operação”, refere. Um dos exemplos é o programa Smart City of Rock, que integra quase 30 startups com soluções inovadoras ligadas à cadeia de valor do evento. Paralelamente, as ferramentas tecnológicas são cada vez mais importantes para a gestão operacional e para a segurança, “permitindo identificar potenciais problemas e atuar preventivamente”.

Num festival com uma identidade tão consolidada, a inovação continua a ser uma prioridade. “Há sempre espaço para inovação”, garante Ricardo Acto. “O próprio Rock in Rio Lisboa continua a reinventar-se edição após edição.” A edição de 2026 contará com novas experiências, conteúdos, áreas e parcerias, num esforço contínuo para surpreender o público e elevar a experiência do evento, que na última edição, adianta o responsável, gerou um impacto económico estimado em 120 milhões de euros para a economia nacional.


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