Ricardo Caçador: “Fazer parte de um evento é fazer parte da memória”

Entrevista

24-02-2026

# tags: Agências , Eventos , Vida de Eventos

Ricardo Caçador é diretor da Right Connection e chegou ainda jovem à indústria dos eventos.

Chegou a esta área através do associativismo jovem – “as dinâmicas ditavam a organização e promoção de ativações”, começa por explicar. “De forma organizada e coletiva”, é quando inicia o percurso no ensino superior, na Universidade de Coimbra, “onde, como membro da Associação Académica, integro os órgãos do pelouro da Cultura, entre outros órgãos sociais da universidade”.

Após esta fase, decide especializar-se em Gestão Estratégica de Eventos, na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, “onde aprendi com profissionais incríveis que se destacam no mercado nacional e internacional”.

Ricardo Caçador refere fazer parte “de uma geração que atravessou todos os momentos difíceis da economia, mas que, apesar de todos os constrangimentos, não deixa de lutar por aquilo em que acredita”. “É esta vontade de crescer, aprender e trabalhar que me leva a mudar de cidade, a colaborar com diferentes empresas do setor para dar resposta a todas as necessidades dos nossos clientes. Produção, road management, stage management, direção técnica são valências e respostas que podemos dar enquanto profissionais – desde eventos públicos e privados, concertos, feiras, certames, festivais e ativações”, adianta.

Para Ricardo Caçador, o maior desafio da sua carreira, até ao momento, é o atual. “Como diretor da Right Connection, tomámos a decisão de nos sediar no interior do país, estando o nosso escritório localizado no centro histórico da cidade da Guarda. Numa zona com um enorme potencial, e estando nós no profundo interior do país, acreditamos que os eventos poderão ter um impacto significativo no desenvolvimento local e, acima de tudo, no desenvolvimento do território”, conta.

Contudo, “infelizmente, não o podemos fazer sozinhos. As entidades locais não têm a mesma abertura e dinâmica de outras capitais de distrito. É preciso fazer essa abertura, criar mecanismos, desenvolver parcerias, promover a cultura e o turismo de forma sustentável”, explica, rematando: “O verdadeiro desafio é conseguir estar no interior do país e trabalhar no interior do país.”

“Tudo tem de ser previsto e revisto”


Do que mais gosta na indústria dos eventos é da “possibilidade de criar e tornar ideias em realidade, ainda que de forma efémera na sua forma tangível, mas que perduram na memória daqueles que as vivenciam. Transformar a mensagem numa experiência e ter a liberdade para criar e desenvolver as nossas ideias, as ideias dos clientes, é motivador”.

Quando tem de apresentar uma solução inovadora e criativa, Ricardo Caçador lembra que “há exemplos de excelência espalhados por todo o mundo, com gente imensamente criativa. O benchmarking é um processo constante, tanto de forma interna como competitiva, o que nos dá referências que depois são repensadas e adaptadas às nossas soluções”, afirma.

No seu percurso, há pessoas com quem aprendeu muito e que guarda com grande estima. “Colegas de trabalho e clientes que hoje são amigos. Todos eles definiram o meu percurso e as minhas decisões. Todos eles me fizeram crescer no setor”, frisa.

Ricardo Caçador garante que não tem superstições antes de um evento, mas tem hábitos. Diz que nunca se esqueceu das palavras de um docente e profissional: ‘cuidado com a vossa alimentação, durante o evento não podem adoecer’. Adianta que, “ao longo dos anos, principalmente quando estamos na estrada, seja como produtor ou road manager, podemos não ter as condições ideais à nossa volta”, por isso, defende que “tudo tem de ser previsto e revisto”.

“Ouvir e tomar decisões informadas é o mote, sempre”


E como se gere a pressão e o stress próprios de um dia de evento? “Poderia dizer que há exercícios de respiração, momentos de meditação, mas não. Acima de tudo, manter a cabeça fria e confiar no plano construído, confiar no know-how, tanto nosso como de todos os profissionais à nossa volta, as equipas técnicas e artistas que nos acompanham. Não reagir sem ter a certeza do resultado que queremos obter. Ouvir e tomar decisões informadas é o mote, sempre.”

Ricardo Caçador afirma que todos os eventos são marcantes, pois todos eles fazem parte do caminho. Ainda assim, faz referência a um: a ComicCon Portugal em 2019, no Passeio Marítimo de Algés – “um evento desafiante para o qual tive o gosto de ser convidado a integrar a equipa de produção. Um evento de grandes dimensões, direcionado para um público específico, que obrigou a uma gestão consciente e eficiente de fornecedores e ativações, com um alinhamento de atores e artistas internacionais”.

“Levantaram-se preocupações logísticas e de segurança, às quais só os grandes festivais estão obrigados”, refere, sublinhando que “acima de tudo, e o que verdadeiramente interessava, era garantir uma verdadeira experiência para todos os participantes e visitantes”.

“Este é um setor especialmente complexo, que exige dedicação e rigor”


Ricardo Caçador considera que o setor dos eventos “está em constante evolução” e que “acompanha tantos outros setores, sejam eles criativos ou tecnológicos”. “Só assim podemos dar resposta aos novos desafios. As mentalidades mudam e o setor deve acompanhar essa mudança, de forma regulamentada e controlada”, sustenta.

“Assistimos hoje a um crescimento exponencial de empresas no setor onde as garantias de qualidade, a falta de regulamentação e especialização trazem desafios e desigualdades ao mercado. A maioria dos clientes ainda define a qualidade através do preço e sem necessidade de credenciais e portefólio credíveis”, acrescenta.

Às gerações que estão agora a entrar na indústria dos eventos, o diretor da Right Connection recorda que “há áreas de negócio que exigem muito dos seus recursos humanos, de diversas formas possíveis” e que “este é um setor especialmente complexo, que exige dedicação e rigor”.

“O sentido de responsabilidade é uma obrigatoriedade, é a definição de qualidade. Mais do que o backstage a que podemos ter acesso ou o artista com quem nos podemos cruzar, trabalhar nesta área exige um profissional ético, discreto e com a consciência de que cada detalhe deve ser tratado com reserva, profissionalismo e habilidade de conciliar proximidade com a necessária distância”, sublinha.

Ricardo Caçador acredita que “fazer parte de um evento é fazer parte da memória. Da memória coletiva e pessoal daqueles que nele participaram. Construir uma experiência é construir uma memória”, conclui.

© Maria João Leite Redação