Tupac Martir: “O talento português é gigante”
26-10-2026
# tags: Reinvent , Eventos , Tecnologia
É difícil enquadrar Tupac Martir, diretor criativo e fundador do Satore Studio, nas categorias tradicionais. Do design de comunicação às artes performativas, de trabalhos com músicos como Beyoncé, Elton John, Sting ou marcas como a Prada e Max Mara, da realidade virtual à tecnologia médica como matéria-prima, a sua criatividade e capacidade de inovar parecem inesgotáveis.
O artista mexicano foi ao Reivent falar da tecnologia como personagem e acabou por emocionar a assistência com um vídeo sobre Haita, um dos seus mais recentes trabalhos. Foi justamente por aí que começámos esta conversa, em que Tupac Martir fala sobre tecnologia, migrações e talento.
Ainda sob o efeito daquela bela peça [Haita] que vimos, gostaria de começar por aí. Falamos muito de tecnologia, mas depois, no fim, tudo aquilo foi emoção. Como é que se consegue juntar toda essa tecnologia, todas estas tecnologias, para criar uma emoção tão forte nas pessoas e contar uma história do futuro? Se calhar, é o que fazemos também nos eventos…
A coisa mais importante sobre essa peça era que eu pensava todos os dias nos imigrantes. Para mim, isso era o mais importante. Era a forma de entender a história deles, de fazer com que as pessoas entendam a dor dos que são deixados para trás. Não só os que foram, mas os que ficaram. E a dor que sentem, a dor de temer e de não saber o que se está a passar. A angústia.
A tecnologia, neste momento, é mais do que uma ferramenta. Porque uma ferramenta ajuda a fazer as coisas. Mas quando entendes as possibilidades da tecnologia, entendes que é um personagem, que pode recontar a história. Que pode ajudar. Não é apenas uma coisa para se ver, é algo que está ali para contar a história.
Então, quando falamos em tendências para o futuro, é essa uma tendência? Perceber que a tecnologia é mais do que uma ferramenta…
Certo. Pode ver o exemplo das gerações mais novas. Para elas, o telemóvel não é uma coisa estranha. Entendem o telefone de uma maneira completamente diferente. Não é uma ferramenta. É uma forma de criatividade. Todos estes influencers, todas estas pessoas, o modo de trabalho deles é o telefone. É a câmara, é esta tecnologia. Nós já não vemos isso, porque não pensamos nela. Mas se eu perguntar ao meu avô, ele vai ver o telefone como uma tecnologia.
O grande problema é que pensamos que a tecnologia é sempre a coisa mais recente. Mas uma televisão é tecnologia, um ábaco é tecnologia, uma calculadora é tecnologia. Mas na nossa forma de pensar, tecnologia é sempre a coisa mais nova, não pensamos que a tecnologia pode ser uma coisa velha.
O Tupac está a morar em Lisboa há algum tempo. Como é que vê o panorama dos eventos em Portugal?
Para mim, o panorama dos eventos em Portugal é muito interessante. Uma das razões por que eu estou aqui, foi porque vimos que Portugal estava a criar um grupo de pessoas muito interessantes para mover, para fazer coisas novas, que não existiam em outras partes do mundo, noutras partes da Europa.
Creio que o talento português é gigante. Mas, muitas vezes, esse talento não encontra possibilidades dentro de Portugal e vai para outras partes. Agora, uma das coisas que nós queremos fazer é trazer esse talento de volta a Portugal.
©Equipa Nuno Ramos Photographer
O que disse Tupac Martir no Reinvent?
Para Tupac Martir, a tecnologia transcende o papel de mera ferramenta, tornando-se cenário, linguagem e até personagem. No entanto, é importante garantir a autenticidade, mesmo quando a criatividade se apoia na IA. Na sua opinião, os criadores devem creditar a IA como colaboradora, sendo transparentes com os clientes sobre a forma como foi usada, assumindo total responsabilidade pelo seu uso e não reclamando crédito pelo que não fizeram.
A participação de Tupac Martir terminou com a apresentação de Haita, uma obra construída em vários locais ao longo do rio Tejo, em Lisboa, que nasceu do exercício de imaginar como a coreografia de um bailarino poderia ser explorada de dentro para fora. Como artista residente do Centro Champalimaud, Tupac Martir usou equipamento e tecnologia médica para analisar o corpo e o cérebro da bailarina, construindo uma imagem invertida de como quem dança imagina a sua própria coreografia. Recorreu a ressonância magnética, eletroencefalograma e captura de movimento/volumétrica de uma bailarina para gerar os visuais, a luz e o movimento de uma narrativa sobre a migração, enquadrada pelos cantos mexicanos e de fado.
© Olga Teixeira Redação
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