Daniela Miguel Martins: “Nós, portugueses, somos muito bons a criar relações”

Entrevista

08-04-2026

# tags: Eventos , Passaporte Português , Dubai

Daniela Miguel Martins é gestora de eventos a operar no Dubai, através da sua consultora DSM Magna.

O percurso na área dos eventos teve um início atípico. Começou a trabalhar na área com 16 anos, porque a mãe “não queria que eu desperdiçasse um verão em casa sem fazer nada”. Estreou-se no, então, Optimus Alive. “Percebi na minha adolescência o que queria ser e exatamente o que queria fazer”: gestora de eventos. Nos verões seguintes, agarrava oportunidades de freelancer ou participava em campanhas de marcas no Natal, porque “o que queria era aprender” e ganhar experiência na área.

O curso superior em Gestão foi interrompido, depois de receber uma proposta para trabalhar na área de eventos, iniciando assim a sua carreira em eventos diplomáticos, governamentais e protocolares, no International Club of Portugal. Mais tarde, trabalhou noutras indústrias como gestora de clientes, mas rapidamente percebeu que a sua verdadeira paixão continuava a ser a gestão de eventos, função que voltou a assumir.

Um momento decisivo no seu percurso ocorreu em 2021, após uma visita de férias ao Dubai. “A Expo 2020 estava a acontecer, a cidade vibrava com eventos e percebi que era aqui que eu queria estar, que eu queria desenvolver a minha carreira”, conta Daniela Miguel Martins, acrescentando: “Dificilmente existiria outro lugar no mundo com tanta escala, frequência e ambição em eventos como nos Emirados Árabes Unidos [EAU].”

Mudou-se para o Dubai em 2022 e descreve o trajeto como uma “montanha russa”, tendo já entregue vários eventos de grande dimensão e prestígio.

A primeira sensação ‘I’ve made it’


Passados cerca de três meses da mudança para o país, Daniela Miguel Martins já estava a trabalhar com a equipa protocolar do presidente dos EAU para entregar a Abu Dhabi Sustainability Week Opening Ceremony & Zayed Sustainability Prize Awards Ceremony 2023, que contou com 14 chefes de Estado, 900 convidados protocolares e diplomáticos, num total de 5.000 convidados. “Foi a primeira vez que tive aquela sensação: ‘I’ve made it’”, conta. E foi nesse evento tão marcante que também percebeu que estava “numa liga completamente diferente” da portuguesa.

Em relação aos desafios que tem encontrado no caminho, Daniela Miguel Martins conta que nos EAU “há muito a perceção de que, com orçamento, tudo se resolve”, e que isso se traduz, por vezes, “em prazos muito apertados e pouca margem para timelines ‘certinhas’. Já tive de montar um evento para mais de 600 pessoas com apenas uma semana de preparação”.

O protocolo é um outro desafio. “Os pedidos das equipas de protocolo das famílias reais simplesmente não são negociáveis e, muitas vezes, chegam em cima da hora, por vezes a 24 horas do evento. E aí não há volta a dar, a operação tem de se adaptar”, afirma. Dá o exemplo de um evento, onde, a 24 horas do seu início, foi necessário desmontar e montar um palco inteiro para mudar a sua orientação, porque o protocolo assim exigia. “É intenso, mas também nos obriga a estar sempre preparados para reagir rápido.”

Uma das experiências mais desafiadoras que já teve pela frente aconteceu durante um grande evento diplomático, em que, por uma situação inesperada, teve de receber um volume adicional de mais de 100 de pessoas de delegações diplomáticas mundiais. “Lembro-me de pensar: ‘ok, tu consegues!’” Acionadas as contingências necessárias, o plano de acesso e protocolo foi ajustado e os lugares foram redistribuídos. “Foi uma das maiores provas de sangue frio e liderança que já tive”, recorda.

“O nosso passaporte continua a ser um dos mais fortes”


Cresceu com a Exposição Mundial de Lisboa, onde os pais trabalharam – “sou praticamente uma filha da Expo’98”. “Eu era pequena, mas ainda hoje me lembro da sensação de fazer parte de algo maior do que eu e há qualquer coisa nisso que me continua a atrair”, conta.

Outro fator que a puxou para a área dos eventos prende-se com a sua maneira de ser. “Não gosto de estar parada, nem de fazer a mesma coisa durante muito tempo. E os eventos tem exatamente essa vantagem: começa do zero, ganha forma, cresce, acelera… e quando termina, já estamos a pensar no próximo.” O ritmo exigente e a adrenalina dão-lhe “imensa satisfação e vício” e facilmente as ansiedades vividas, as lágrimas, as noites não dormidas são ultrapassadas. “Fazemos três piadas e ‘bora lá... outra vez.”

Também gosta do tipo de eventos que faz e explica que os eventos governamentais e protocolares têm um peso diferente. “Há uma sensação de responsabilidade e de propósito. Dá-nos a sensação de estarmos a contribuir para algo que realmente importa e de fazermos parte de momentos que, de alguma forma, tem impacto.”

Daniela Miguel Martins não tem dúvidas de que ser portuguesa é uma mais-valia. “Somos muito respeitados no mercado, pela nossa capacidade profissional e pelo nosso ‘desenrasque’”, frisa, lembrando que a facilidade do passaporte português e as boas relações diplomáticas de Portugal a nível internacional são uma vantagem.

“O nosso passaporte continua a ser um dos mais fortes e, muitas vezes, não nos apercebemos de que isso vai muito além de viajar sem visto para dezenas de países em férias. Essa credibilidade abre portas, transmite confiança e, muitas vezes, traduz-se em respeito profissional logo a partida”, adianta.

“O potencial está em Portugal, só temos de perceber como o podemos capitalizar”


Trabalhar fora de Portugal aconteceu de forma natural. Aquando da sua visita ao Dubai, percebeu que se queria fazer parte dos maiores eventos do mundo era lá que tinha de estar, “não só pela escala e pela frequência, que são difíceis de comparar, mas também pela ambição com que os Emirados olham para esta indústria”.

Para Daniela Miguel Martins, em Portugal, o teto da carreira em gestão de eventos tende a ser mais baixo. Fala em “menos oportunidades para crescer”, em “menos mobilidade” e de uma progressão salarial que “não acompanha a responsabilidade e a exigência do trabalho”. No Dubai, sente o contrário e vê a gestão de eventos como uma “profissão valorizada, respeitada e reconhecida no mercado”, ao nível de outras carreiras altamente qualificadas.

Apesar de considerar que, em Portugal, o setor é, no geral, “mais organizado e estruturado”, entende que existe “pouco investimento” e uma visão “muito conservadora sobre o valor dos eventos”, por comparação com os EAU. Defende que os eventos não devem ser vistos como um custo ou um desperdício de dinheiro, mas “como uma ferramenta estratégica de comunicação, posicionamento, relacionamento e impacto económico”.

Lembra, contudo, que Portugal tem “dos maiores profissionais do mundo a trabalhar na área” e é o país de eleição de grandes eventos, como a Web Summit ou o Rock in Rio. “O potencial está em Portugal, só temos de perceber como o podemos capitalizar. E o Middle East aprendeu a fazer isso desde muito cedo.”

Para já, não está nos seus planos regressar a Portugal. Apesar de gostar muito do país, os EAU oferecem, profissionalmente, “uma escala, um ritmo e uma valorização da carreira” que não é comparável com o mercado português, “sobretudo nas áreas protocolares e governamentais, que são o meu foco”.

Cultura, protocolo, hierarquia e forma de comunicar são “o jogo”


A quem pretende trabalhar internacionalmente em eventos, Daniela Miguel Martins avisa que é preciso estar preparado “para jogar ‘na primeira liga’ todos os dias”. E deixa um conselho: levar os valores da “disciplina, atenção obsessiva ao detalhe e capacidade de executar sob pressão – É isso que te faz destacar fora”.

Considera importante aprender sobre o país, antes da tentativa de aplicação dos métodos pessoais. “Cultura, protocolo, hierarquia e forma de comunicar não são detalhes, são o jogo. Quem respeita esses códigos ganha confiança e acelera a carreira, principalmente no Middle East”, alerta.

Daniela Miguel Martins sublinha ainda a necessidade de se “investir a sério” no networking, porque “as oportunidades raramente vêm por anúncios” no mercado internacional. “Nós, portugueses, somos muito bons a criar relações: sabemos ouvir, sabemos receber, sabemos manter contacto. Usa isso a teu favor. Constrói uma rede com intenção, entrega valor primeiro e protege a tua reputação como se fosse a tua moeda. Lá fora, o teu nome corre antes de ti e é isso que te abre as portas certas”, remata.

© Maria João Leite Redação