Tiago Andrade: “Devemos viver sempre em modo beta”
06-04-2026
# tags: Eventos , Cultura , Porto
Com um percurso que acompanha a evolução dos eventos em Portugal, da Expo’98 ao Porto 2001 e a Guimarães 2012, Tiago Andrade é hoje responsável de entretenimento da Ágora, a entidade responsável pela cultura e desporto na cidade do Porto.
A entrevista aborda estratégia, planeamento, risco e responsabilidade pública. O diretor de Entretenimento da Ágora, defende uma abordagem territorial aos eventos, onde cada projeto é pensado à escala da cidade e da comunidade.
Quais foram os momentos mais marcantes da carreira até agora?
Fiz um percurso que tem muito a ver com a história dos eventos em Portugal. Licenciei-me na área do turismo e os primeiros passos que dei profissionalmente foram como transferista. Tive o privilégio e a sorte, logo no início, de trabalhar para uma grande instituição, o Inatel. Comecei a trabalhar também numa altura em que o turismo estava em alta, em que se pagava bem. Tive a sorte de, em 1998, ser colocado pelo Inatel na Expo’98. Ou seja, consegui acompanhar o processo da Expo’98, de maio a setembro, que foi a duração do evento. Nessa altura, já tinha algum gosto pela cultura, pela música, sobretudo.
Depois, em paralelo, começo a trabalhar com a Realizar. Acabei por trabalhar num projeto que a mim me deu muito gozo e que, se calhar, quando olho para trás, foi o início daquilo que hoje sou, e que foi ajudar a pensar um programa de animação para uma zona que estava a ser recuperada, que era a zona das praias de Vila Nova de Gaia. Portanto, nós fizemos um plano, durante dois anos, de animação de toda a orla costeira. Foi um trabalho muito interessante porque cruzava três coisas de que eu gostava. Por um lado, o turismo, por outro lado, a animação, que era uma coisa a que eu também achava piada, e depois estratégia. Mais tarde, faço uma candidatura espontânea para a Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, fui a uma entrevista e fui contratado no próprio dia.
Foi uma grande viagem. A Porto 2001, obviamente, deu-me a base para aquilo que eu precisava. Havia áreas da cultura para as quais não estava minimamente preparado e deu-me versatilidade, que hoje também tenho, porque fui percebendo o que era eficaz, produtivo e marcante nos projetos. Tive a felicidade de, numa altura em que o próprio setor se estava a profissionalizar, conhecer muita gente que, ainda hoje, é referencia. E isso, obviamente, é fundamental: estar no sítio certo a hora certa e eu, na minha vida profissional, tenho tido essa grande sorte.
Terminada a Porto 2001, o que se seguiu?
Em fevereiro de 2002, fui convidado para abraçar um projeto em Guimarães, cidade que estava a começar a despontar para a cultura. Eles tinham um problema e precisavam de uma solução e achavam que a solução passava pela cultura. E qual era o problema? Tinham uma cidade muito interessante, em termos patrimoniais, económicos, uma cidade que se estava a reinventar porque tinha tido um grave problema nos finais dos anos 80, anos 90, com a questão da falência da têxtil e tinha um desenho de território muito rural ainda. E, portanto, queriam, de certa forma, agarrar as pessoas na cidade, criar novas oportunidades e o turismo não estava a ser eficaz. Eles tinham turismo, mas o visitante estava umas horas, e depois ia embora porque não tinha nada para fazer. E queriam arranjar coisas para fixar as pessoas na cidade. Este era o desafio.
Começo a trabalhar na estrutura, que era a Oficina, a cooperativa municipal da Câmara Municipal de Guimarães e o projeto estava muito bem pensado. A pessoa que estava a frente da cultura na Câmara, que, entretanto, já faleceu, a Dra. Francisca Abreu, tinha uma visão muito estruturada do que queria. Quando me entrevistou disse uma coisa muito curiosa, que foi: “Eu tenho três coisas que quero para Guimarães nos próximos anos; quero estabelecer e consolidar o trabalho que a cidade tem, do ponto de vista da contemporaneidade, da diversidade, da cultura e do reconhecimento da própria cidade; quero, muito rapidamente, criar um espaço de apresentação, um auditório, onde as pessoas se sintam bem, onde possamos produzir cultura a partir da cidade; e quero, no máximo, num prazo de 10 anos, fazer uma Capital Europeia da Cultura aqui em Guimarães”.
Entrei dia 2 de dezembro de 2002, fomos Capital Europeia da Cultura em 2012, dez anos depois. E, antes, em 2005, dia 17 de setembro, inaugurámos o Centro Cultural Vila Flor e, a partir daí, toda uma série de outros projetos de cidade e outras infraestruturas. E isto, lá está, foi o segundo capítulo da minha vida, em que a estratégia, o turismo e a cultura se juntam. Foram 12 anos – estive até 2014 em Guimarães –, em que cruzamos várias fórmulas de conseguir criar público na cidade do ponto de vista cultural e do ponto de vista de visitantes e de turismo.
É mais fácil testar coisas em Guimarães do que numa cidade maior?
Cada vez acredito mais na base. Como é que vais desenvolver o teu projeto? O que é que pensas para o teu projeto? Já tens definido claramente? Então vamos trabalhar nessa base. E depois há uma coisa em que eu massacro muito as pessoas que trabalham comigo, ou mesmo quando dou aulas. Temos de estar muito atentos aquilo que nos rodeia. É muito importante acordarmos todos os dias e aprender um bocado mais, ser humilde o suficiente para saber que eu não sei tudo. Há sempre coisas que nós podemos mimetizar, podemos replicar, podemos amplificar, podemos redesenhar, redescobrir e retrabalhar de outra forma no nosso espaço. Temos é que estar abertos a isso.
Aqui há uns anos fui a uma conferência de uma pessoa que dizia uma frase que eu nunca mais esqueci e é quase um mantra que tenho: devemos viver sempre em modo beta. Nunca devemos assumir que estamos naquele ponto em que isto está testado, está feito e correu bem. Quando o fogo do edifício rebenta, quando o videomapping funciona e quando acaba, está tudo em êxtase: arrancou, correu bem, a luz acendeu, espetacular. Toda a gente, invariavelmente, vem ter comigo, a abraçar-me e a dizer: ‘caramba, põe uma cara feliz, correu bem’. Não consigo, porque acho sempre que podíamos ter feito melhor.
Tentando responder à pergunta, aquilo que se fez em Guimarães pode ser replicado no Porto e já o repliquei em algumas situações. Mas cada sítio é um sítio e, cada vez mais, acredito que cada território é um território e tem que ser trabalhado como site específico. E cada vez mais acho que as cidades, as empresas, os projetos, devem ser pensados para aquela comunidade.
Falou de que nunca fica realmente satisfeito. Houve algum evento que imaginou de uma forma e de facto aconteceu dessa forma?
Na maior parte dos projetos tenho tido essa felicidade. Não tenho nenhum…
Nenhum que se tenha destacado?
Diria que há um que me marcou bastante e, se um dia tiver deixado uma marca, esta é a marca. Às vezes, as pessoas esquecem-se disto, mas Portugal organizou uma Champions em 15 dias. A equipa que estava ali era a minha. E nós, em 15 dias, montámos uma Champions com tudo o que isso implica de gestão de logística, de segurança, gestão Covid. Nós fizemos, em plena Covid, uma Champions, com adeptos dentro do estádio. Lisboa também fez, mas teve três anos para organizar. Foi um daqueles desafios que nós não tínhamos como ter a certeza de que ia correr bem. Eu não entro em nenhum desafio para perder, isso é certinho. Sou demasiado previdente, faço contas, olho para a equipa, estudamos o assunto, quando achamos que vai haver problemas salvaguardamos o problema para que toda a gente saiba – ou a dificuldade, eu não gosto de ter problemas, gosto de ter dificuldades.
Chegou ao fim e acho que ainda foi melhor do que o que estávamos a contar. Tudo o que podia ter corrido mal, não correu e, no fim, o feeling foi bom para todos. Além da Champions, há outros: o Rally de Portugal, por exemplo. Fizemos uma especial classificativa dentro da cidade. Os carros saíam da Sé do Porto e acabavam na Torre dos Clérigos, portanto, a probabilidade de alguma coisa poder correr mal era muito grande e, ter feito isso, é uma superação.
O risco dá-lhe uma motivação extra?
Os desafios são os desafios e eu, sobretudo, tenho trabalhado em sítios onde não há nada e tens que criar do zero e isso tem a beleza de poderes fazer o que quiseres, trabalhar numa tela em branco, isso é extraordinário. Mas depois, ao mesmo tempo, a probabilidade de falhares é muito grande, porque não tens referência e não sabes se é possível. Tenho tido essa felicidade, de trabalhar com pessoas que me dão a possibilidade de ser maluco o suficiente para acreditar que estes projetos podem acontecer e, depois, ter outros malucos que, ao meu lado, ajudam a empurrar o carro para que estes projetos aconteçam e isso é uma magia muito interessante, quando consegues uma simbiose entre aquilo que é a vontade da equipa, a vontade de quem está acima de ti e aquilo que depois é a concretização final.
Voltemos ao percurso. E depois de Guimarães?
Continuei a trabalhar em Guimarães e um dia apareceu a possibilidade de vir trabalhar para o Porto. Sou sincero, nem sequer pensei na questão financeira, embora seja importante, mas para mim era mesmo importante voltar para o Porto, e, sobretudo, trabalhar com um projeto que fosse a cidade e de cidade. Daí para a frente, foi um outro projeto [na Ágora], uma outra realidade muito curiosa, porque mudo de uma lógica de cultura, pura e dura, programação cultural, programação artística, trabalhar muito com rede dentro de teatro – 90% do meu trabalho era dentro de espaços físicos. Quando chego aqui ao Porto, a lógica é a mesma, mas tu agora só vais trabalhar no espaço público, não vais trabalhar dentro de portas.
Tem sido curioso, porque acho que temos conseguido desenvolver um trabalho que vai do projeto mais pequeno, mais inusitado, mais intimista, ao projeto de massas que toca a cidade toda, que toca a região toda, que toca a área metropolitana e que, hoje em dia, muitas vezes, é um marco internacional. O São João hoje é um marco internacional, tal como a Passagem de Ano, as luzes de Natal.
O que mais o inspira, neste momento, no trabalho?
O que me inspira é a cidade. Às vezes, tendo a ser um bocado poético. Sinto que, com aquilo que fazes, com aquilo que desenvolves, tocas a cidade, e o tocar a cidade é melhorar-se a experiência para a pessoa que vive cá.
Pais cada vez mais qualificado para eventos
Querer fazer estas coisas todas e ter de lidar com uma série de regras, de procedimentos a que vocês estão obrigados, até que ponto é que isso é castrador dessa vontade de fazer coisas?
É absolutamente castrador. Ao ponto de pôr em questão alguns projetos. Há coisas que, logo a cabeça, são impossíveis de fazer, porque os timings da contratação pública não permitem. E aí morre o assunto. Sou muito pragmático a trabalhar. Quero sempre fazer o melhor possível, mas se não conseguir fazer o melhor possível, vamos fazer o bom. Quando trabalho numa empresa privada, até a hora posso decidir o que quiser. É com o meu dinheiro, as regras são as minhas. Quando trabalho com dinheiros públicos, essa responsabilidade e esse sufrágio é feito muito cá atrás.
Estou, neste momento, a decidir onde é que vou pôr o palco da próxima Passagem de Ano, porque a lei me obriga a isso. E isso é muito complicado. Porque do ponto de vista da contratação pública, não posso dizer que quero um palco para o dia 31 de dezembro de 2026, tenho que dizer que preciso do palco naquela data, em que local é que ele tem que estar montado. Tenho que definir isto, pelo menos, com um ano de antecedência. Acho que há áreas em que a contratação pública devia ser aliviada, ter outro tipo de regras. Imagina que começa a chover num evento em que até está o executivo, uma entrega de medalhas do município, e faço aquilo num jardim público, e, de repente, a uma semana do evento acontecer, sabe-se que vai chover. Eu tenho de ser ágil o suficiente para contratar uma tenda.
Como é que olha para a qualidade dos fornecedores?
Acho que o país está cada vez mais qualificado e que temos cada vez mais empresas alinhadas com aquilo que é o mindset dos municípios e dos grandes municípios em Portugal. O que sinto, ao mesmo tempo, é que, porque é uma área que está a crescer, porque é uma área com margens de lucro, apesar de tudo, bastante interessantes, há muita gente a vir para o setor que, depois, utiliza algumas ferramentas que não são as melhores para conseguir tirar dividendos disso.
Já nos aconteceu termos fornecedores, cumprirmos as regras da contratação pública e, quando chegamos a altura, aquilo que nós contratamos não corresponde à realidade e não há nada que nos proteja. Vamos para tribunal, só que o evento, tem que acontecer naquele dia, àquela hora. E nós não conseguimos fazer nada. Não há tempo útil. E, portanto, vais para a mesa, negoceias e tentas dar a volta. E isso é muito complicado. Aí, engolimos muitos sapos.
E essas condicionantes permitem trabalhar com os melhores fornecedores ou com os fornecedores com quem gostaria efetivamente de trabalhar?
Acabam por nos obrigar a isso. Hoje em dia, os cadernos de encargos são cada vez mais profissionais. A Ágora, por exemplo, em determinados concursos contrata pessoas específicas da área para desenvolver os cadernos de encargos. Antigamente, não havia essa necessidade. Queria este copo, dizia: quero 50 copos iguais a este. Hoje em dia, não chega, tenho que dizer que quero este copo, que a espessura do copo é esta, que a largura é x, etc. Portanto, isso obriga a um conhecimento que, muitas vezes, nós não temos e devemos ter a humildade de o assumir. E eu tenho, claramente. Cada macaco no seu galho.
Portanto, sei da minha área, que é a gestão e planeamento. Mas depois, em cada uma das áreas, cada um faz o seu trabalho. E há coisas que são muito específicas e, portanto, nós devemos procurar ajuda dessas mesmas pessoas. E essas pessoas devem especializar-se nisso. Como vocês imaginam, os fornecedores também fazem o mesmo. Há empresas que tem pessoas sentadas em frente ao computador o dia todo, a espera que caiam concursos públicos para se candidatarem. Fazem o trabalho inverso. É um processo difícil, mas que nos tem obrigado a qualificar-nos e a fazer melhor.
“Só trabalho com números”
Há algum território na cidade do Porto que precise de ser mais trabalhado ou ter uma atenção especial?
Não necessariamente. Trabalhamos o território da cidade toda. E isso é importante para percebermos quais são as necessidades de cada um dos territórios. E como é que nós temos que mexer dentro de cada um.
Quando está a programar, a decidir o que acontece onde, quais são os seus critérios básicos na escolha?
Isso é muito complicado. Eu sou um gestor. Gosto de me ver como um gestor, como uma pessoa que, sobretudo, olha, define estratégias e trabalha em equipa. Durante muitos anos, sim, desenvolvi com a equipa a programação, não havia um programador. Hoje em dia, já tenho uma equipa de programadores que vai trabalhando e discutindo comigo essas lógicas, no mínimo, posso também dar a minha opinião. Procuramos, sobretudo, coisas que sejam consensuais e que sejam adequadas aquilo que é a realidade que estamos a trabalhar.
Depende do nicho de mercado de que estamos a falar, se estamos a falar de um evento mais pequeno ou maior, se estamos a falar da Passagem de Ano, Natal, do São João, ou se estamos a falar de um programa operacional específico para uma freguesia. Dando um exemplo objetivo, o Natal. Temos um pressuposto na nossa programação, queremos sempre que haja uma ligação entre a comunidade e o que acontece nos palcos. Como é que trabalhamos a lógica da família no Natal? Com projetos que sejam, sobretudo, transversais as crianças e aos adultos. Vamos focar-nos sempre em nomes de artistas que sejam mais ou menos transversais e depois cruzamos com outra coisa que, para nós, é fundamental: a ligação à cidade.
Então o que é que fazemos? Vamos buscar estes artistas e cruzamo-los com as estruturas da cidade. Cada projeto é um projeto e nós vamos trabalhando, olhando para o projeto e percebendo o que é que encaixa ali. Não o fazemos, embora haja quem faça, através do Spotify, do número de views. Hoje em dia, nós chegamos ao ponto de conseguir ter o alcance de um artista na cidade do Porto.
Mas gostava de ter estudos para tomar essas decisões?
Essa é uma discussão que está em cima da mesa. Só trabalho com números. E, portanto, para mim é fundamental não só a perceção, o vox pop. Quando acaba um evento, chego a casa e vou rever tudo. Vou dissecar totalmente as redes sociais a perceber os comentários todos. No final dos eventos, sobretudo nos eventos grandes, fazemos reuniões de debriefing em que temos informação ao ponto de: a partir de que horas é que começamos a ter mais comas alcoólicos; qual era a faixa etária onde tivemos mais comas alcoólicos; qual foi a zona geográfica da cidade onde tivemos mais pessoas que se magoaram? Porquê? Porque é que caíram? Porque é que se magoaram? Tudo isto, para mim, é informação relevante do ponto de vista dos eventos. Os estudos de públicos são, hoje em dia, uma ferramenta fundamental para as cidades e para os projetos.
Há outra coisa que também defendo: que o planeamento estratégico das cidades não pode ser só a cultura, só a animação, tem de ser integrado. Os livros brancos regionais, que se perderam aqui há uns anos, do ponto de vista macroeconómico e que depois vão tocando outros setores, eram fundamentais para serem também uma base que, depois, cruzando com a visão mais micro, ajuda também a perceber melhor. Eu, por exemplo, não consigo desenvolver uma estratégia de programação para o ano seguinte sem perceber o que é a cidade.
A formação de públicos é também importante? Dar às pessoas aquilo que elas querem ou ajudar a formar públicos?
Não acho que devemos dar aquilo que as pessoas querem, acho que devemos ouvir aquilo que querem e devemos, se for preciso, dar aquilo que as pessoas querem, mas da forma que nós entendemos que poderá levar a um desenvolvimento de algo. Seja a educação, a cultura, um projeto de cidade, uma ideia de cidade, o que for. Nós trabalhamos muito nisso. O exemplo do Natal, não é dar a Rita Rocha ou o Capitão Fausto porque sim. Se tivesse o Capitão Fausto sem orquestra, ficava mais barato. Claro que o facto de juntar uma orquestra da cidade, com músicos da cidade, que não tem muitas vezes essa possibilidade e, se calhar, nunca mais vão ter uma possibilidade na vida, de vir aos Aliados tocar, é uma coisa incrível. A oportunidade que eles tiveram ali de apresentar o projeto é life changing, absolutamente. E, portanto, acho que desse ponto de vista devemos ter aqui algum efeito pedagógico, mas não paternalista, e esta é a dificuldade, às vezes.
Minimizar impactos
Os eventos são muito importantes, mas não têm só impactos positivos. Como é, por exemplo, gerir não só a experiência dos participantes nos eventos, mas dos habitantes da zona onde os eventos acontecem?
É um equilíbrio difícil. A Câmara do Porto tem aqui algumas regras, alguns cuidados que me parecem importantes. Até pegando no exemplo dos festivais maiores da cidade, há uma obrigatoriedade, primeiro de limite de horas e depois os limitadores nos equipamentos. Ou seja, os eventos não podem transcender aquilo que são os decibéis que estão definidos. Há algum cuidado também, e tem havido nestes últimos anos, em não massacrar determinados sítios. Nós temos plena consciência de que, se estivéssemos sempre a fazer programação no centro histórico da cidade, ninguém dormiria. Porque o centro histórico é tao pequeno que nós, de repente, basta amplificarmos um bocadinho qualquer coisa e temos um problema.
Além do mais, não são os únicos programadores...
Exatamente. Mas também temos tido o cuidado de, enquanto reguladores, tentar minimizar esses impactos. Ou seja, o espaço público, hoje em dia, é um bem importante. Já não é tão fácil conseguires ir para um espaço público, fazer um evento, mesmo que não precises de nada. Porque temos esse cuidado, preocupamo-nos com isso. Agora, nos sítios privados, não temos forma de controlar. Como é que também tentamos minimizar isso? Primeiro, com as janelas temporais. A cidade só programa até à hora de jantar, tirando o São João e a Passagem de Ano. Também não podemos ser concorrenciais entre nós. Tenho uma série de outros espaços culturais na cidade que programam à noite. Se fizer um espetáculo gratuito na Avenida dos Aliados ou no Largo Amor de Perdição, ou na Foz, as pessoas vão ver o espetáculo gratuito. Portanto, não faz sentido.
Mais ainda, ultimamente temos investido muito em segurança. Um dos nossos maiores fornecedores é a Polícia de Segurança Pública. E isso é uma preocupação, que o evento acabe de forma ordeira, não haja exageros, e haja uma presença policial adequada. Não queremos que seja ostensiva, mas que seja adequada para o evento. E depois também temos qualificado aquilo que é o evento propriamente dito. Temos tentado aumentar o número de casas de banho. Temos tido também o cuidado de trazer a inclusão para a ordem do dia. Temos casas de banho de mobilidade reduzida, temos plataformas de mobilidade reduzida em todos os nossos eventos, gratuitas, quer para a pessoa, quer para o acompanhante. Hoje em dia, todos os espetáculos que acontecem nestes grandes momentos de programação são traduzidos em língua gestual portuguesa, que é uma das nossas grandes preocupações. Outra das coisas, só para finalizar, é, sobretudo, o aviso prévio e com tempo. Ou seja, a comunicação funcionar. Com tempo, avisarmos as pessoas do que vai acontecer. Temos trabalhado bastante, por exemplo, a sinalética dinâmica na cidade. Esse tipo de informação, hoje em dia, é fundamental. E ajuda a minimizar o impacto junto da população.
10 Perguntas a Tiago Andrade
Cidade para viver?
Claramente, o Porto.
Um destino que ainda quer visitar?
Gosto muito de viajar, e já viajei bastante. Acho que, neste momento, o meu grande objetivo é Tóquio.
Uma comida de conforto?
Sopa, sempre. Qualquer uma.
Primeiro evento que o fez perceber que queria trabalhar em eventos?
Aquele que me marcou mais foi a Travessia a Portugal em Balão de Ar Quente.
Um espaço no Porto onde adoraria criar um novo evento?
Há vários. Gostava muito de fazer um evento na Rotunda da Boavista.
Um concerto intimista ou um espetáculo ao ar livre?
Depende. Eu sou mais dado aos concertos intimistas, mas os espetáculos ao ar livre têm, se calhar por defeito profissional, um lugar no meu coração. Se for um concerto intimista num espaço ao ar livre é o ideal.
Um evento que represente bem a identidade do Porto?
São João. Claramente.
Música que nunca falha na sua playlist pessoal?
É muito complicado. Sou muito eclético. Neste preciso momento, tenho no meu carro a tocar o último álbum do Brad Mehldau. Mas, na semana passada, tive a Rosalía. E, há dois meses, tive o António Pinho Vargas. Já estive a ouvir EU.CLIDES um mês. Se tiver que assumir um nome, que seja o nome, diria que é o Keith Jarrett. Por toda a genialidade e porque é uma banda sonora que me acompanha nos momentos de desenvolver conceitos, ideias, e muitas vezes até de introspeção.
Que livro é que tem na mesinha de cabeceira?
Olha, boa pergunta. Não tenho livros na mesinha de cabeceira. Já há muitos anos que utilizo o tablet para ler. Leio muita coisa técnica, mas diria que o último livro que estive a ler foi a biografia do Obama.
Um hábito essencial num dia de evento?
Vai ser o absurdo que já disse há pouco. O hábito é sempre, quando chego a casa, rever tudo na televisão. E ler a maior parte dos posts nas várias redes sociais. E registar. Registar logo.
Cláudia Coutinho de Sousa e Rui Ochôa
