A importância de incluir pausas, silêncio e bem-estar nos eventos

Reportagem

05-02-2026

# tags: Eventos , Eventos corporativos

Na indústria dos eventos, pensar no bem-estar dos participantes deve ser, cada vez mais, uma prioridade.

O mundo anda a um ritmo frenético e os dias estão cheios de estímulos que nos desafiam a estar permanentemente atentos e disponíveis. Muitos eventos acabam por refletir essa intensidade, podendo tornar-se num espaço de sobrecarga para alguns dos seus participantes. “Eventos longos e muito intensos podem provocar fadiga mental comparável a uma maratona emocional”, refere Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, autora e CEO da Academia Transformar, em entrevista à Event Point.

Assim, incluir pausas estruturadas e momentos de silêncio é uma forma de valorizar o bem-estar e de proporcionar espaço para assimilação e reflexão. “Ganhamos em encarar um evento como uma sinfonia: não vive só das notas, mas dos silêncios que lhes dão forma”, defende Filipa Jardim da Silva, que deixa ainda dicas de boas práticas.

Quais são hoje os principais fatores de stress que afetam os participantes em eventos?

Os principais fatores de stress em eventos são sobrecarga sensorial e informativa: demasiadas horas de estímulos (luz, som, interações), falta de pausas estruturadas e a pressão para “aproveitar tudo”. Estudos mostram que o cérebro humano só consegue manter atenção focada por cerca de 45–50 minutos antes de entrar em fadiga cognitiva (American Psychological Association, 2022). Além disso, para muitos, o networking social é tão exigente quanto falar em público, porque ativa áreas cerebrais associadas ao medo de avaliação (amígdala). Por fim, a tentação dos participantes em registarem tudo com fotografias e vídeos, adiciona uma camada de sobrecarga sensorial, porque, para além de se vivenciar o evento em si, parece existir a necessidade de se mostrar ao mundo nas redes sociais que estamos lá.

De que forma a intensidade e a duração de um evento podem influenciar a saúde mental e o bem-estar dos participantes?

O cérebro liberta mais cortisol quando está em ambientes prolongadamente estimulantes, o que reduz a capacidade de memória e aumenta a irritabilidade. Um estudo da Journal of Occupational Health mostrou que jornadas prolongadas sem pausas aumentam em 60% a probabilidade de exaustão mental. Já acompanhei profissionais que saíram de congressos de três dias com dezenas de palestras e centenas de participantes e a frase era sempre a mesma: “aprendi tanto que não fixei nada” ou “foi ótimo, mas estou esgotado/a”.

Que sinais de ansiedade ou fadiga mental podem ser identificados durante um evento e como é que os organizadores devem agir perante estas situações?

Os sinais mais comuns são agitação física (mexer repetidamente pernas ou mãos), expressões de cansaço (bocejos, olhar vago ou mesmo breves adormecimentos), dificuldade de concentração com as pessoas a procurar constantemente o telemóvel como escape. A ansiedade pode manifestar-se em respiração mais rápida e superficial, suor excessivo ou isolamento súbito. O papel dos organizadores não é “diagnosticar”, mas criar espaços de suporte: zonas mais silenciosas, água fresca disponível, snacks que proporcionem um abastecimento nutricional de qualidade, intervalos frequentes e staff sensibilizado para abordar com empatia os participantes. Alguns organizadores querem ir mais além e reforçar a segurança psicológica dos eventos, pelo que na Academia Transformar já temos participado em algumas iniciativas, assegurando os primeiros socorros psicológicos do evento. Isto, na prática, implica um profissional de psicologia clínica com formação em intervenção em crise e um espaço mais resguardado a nível de estímulos e com alguma privacidade.

Elementos como iluminação, som, temperatura ou disposição da sala têm impacto. Que boas práticas recomenda para reduzir riscos de sobrecarga sensorial?

A neurociência mostra que os nossos sentidos são portas de entrada para o sistema nervoso. Luz demasiado intensa ou som prolongado em decibéis altos ativa uma resposta de stress, como se estivéssemos numa “luta ou fuga” constante. Algumas boas práticas: iluminação natural ou regulável; temperatura amena (entre 20–22ºC é o ideal para manter alerta sem desconforto); áudio com picos controlados (a OMS recomenda não ultrapassar 85 dB); disposição da sala em ilhas de proximidade, que promovem ligação sem gerar pressão de massa. Tal como no corpo, o ambiente também tem um “sistema nervoso” e, quando está equilibrado, todos funcionam melhor.

Como se pode equilibrar sessões intensivas de aprendizagem ou networking com momentos de pausa e descanso?

Um bom evento deve respeitar o ciclo ultradiano do cérebro (padrões biológicos de energia e concentração): períodos de 90 minutos de atenção seguidos de, pelo menos, 15 minutos de pausa. Isto permite consolidar informação na memória de longo prazo. Ao contrário do ciclo circadiano, que regula o sono e a vigília em 24 horas, os ciclos ultradianos são pequenos blocos de energia dentro desse período mais longo.

Sugestão prática: alternar palestras intensivas com pausas ativas (alongamentos, caminhada breve, espaço amplo, música calma) e redesenhar o networking para formatos mais curtos e focados, em vez de maratonas sociais.

Que práticas de mindfulness ou bem-estar podem ser implementadas de forma simples e eficaz num evento?

Pequenos gestos têm grande impacto:

- Check-in de respiração guiada de dois minutos no início de cada palestra, ou pelo menos no início da manhã e início da tarde;

- Estes check-in podem constituir breves momentos de silêncio entre blocos de conteúdo;

- Nos sanitários podemos ter autocolantes com breves indicações para uma respiração abdominal e uma pausa mais consciente ao lavar as mãos.

- Nas mesas de coffee break, pode existir o convite a comer de forma mindful: sentir primeiro o peso do alimento, observar as suas cores e texturas, e provar lentamente.

- Espaços com plantas ou natureza (biofilia), comprovadamente reduzem stress em até 15% (Journal of Environmental Psychology).

- Espaços para meditação formal: cadeirões de massagens ou uns colchões de chão confortáveis, com phones disponíveis e uma meditação guiada, para que as pessoas possam aceder a breves meditações de 5 ou 10 minutos.

Já tive participantes que disseram que um minuto de silêncio valeu mais do que uma hora de slides. Porque o cérebro precisa de espaço para respirar, não só de informação.

Do seu ponto de vista, as empresas e organizadores estão hoje mais atentos ao bem-estar psicológico dos participantes? Em que aspetos se nota essa mudança?

Sim, há uma clara mudança. Cada vez mais vemos eventos com “well-being corners”, programas que incluem sessões de respiração ou ioga, alimentação mais equilibrada e intervalos estruturados. As empresas perceberam que um participante esgotado é um participante que não retém nem cria valor. Um estudo da Deloitte (2023) mostrou que 70% dos líderes reconhecem que o bem-estar dos colaboradores é hoje um fator crítico para produtividade e inovação e isso já se reflete na forma como pensam os seus eventos.

Há um caminho a fazer ainda no que diz respeito à segurança psicológica dos eventos e a este equilíbrio entre ruído e conteúdo e silêncio e pausa, mas há uma evolução notória. Diria que ganhamos em encarar um evento como uma sinfonia: não vive só das notas, mas dos silêncios que lhes dão forma.


Espaços seguros, uma tendência em eventos

São vários os eventos que apostam em espaços seguros, que pretendem isolar os participantes da intensidade dos programas, resguardando-os dos estímulos e permitindo-lhes recarregar energias. A edição de 2025 da Conventa contou com uma sala de silêncio, criada pela empresa austríaca Calm Nest Collective, que se propõem a oferecer um “santuário” em eventos movimentados para todos os que necessitam de uma pausa, “porque sabemos que os eventos podem ser realmente avassaladores”, conta a empresa em entrevista à Event Point.

Também a The Meetings Show 2025 apresentou um espaço dedicado ao bem-estar, com plantas e cadeiras reclináveis para os participantes se sentarem com conforto. Também no Reinvent 2025 existia uma ‘Quiet Room’, para quem quisesse descansar da azáfama do evento.

Estes são apenas três exemplos de como a preocupação com o bem-estar dos participantes é uma tendência emcrescendo no setor.

Atividades de relaxamento e envolvimento

Há eventos que proporcionam aos seus delegados momentos de relaxamento e descompressão, como atividades de ioga ou meditação. Outros oferecem a oportunidade de participar em iniciativas que não só trazem tranquilidade aos seus participantes, como promovem e apoiam as comunidades locais. No dia anterior ao arranque da IT&CM Asia 2025, uma iniciativa da Thailand Convention & Exhibition Bureau levou alguns delegados aos arredores de Banguecoque para várias experiências e workshops: fazer porta-chaves com materiais reciclados, criar difusores de aromas ou provar chá e doces típicos de Khung Bang Kachao.

Bem-estar, um tema em análise

Ainda na edição deste ano da IT&CM Asia, decorreu uma sessão dedicada ao tema, intitulada ´Wellbeing in Events and Business Travel´. “O bem-estar não é um luxo ou uma tendência; faz parte do nosso estilo de vida”, afirmou Supanich Thiansing, diretora M&I da TCEB, que, com os restantes convidados de painel, explorou a forma como o turismo de bem-estar (que está em crescendo em termos económicos) e as iniciativas com ele relacionadas estão a remodelar o setor. Foi ainda apresentada uma campanha recente da Tailândia (Meet Well), que pretende oferecer aos viajantes de negócios viagens com propósito, promovendo o bem-estar da mente e do corpo, refeições nutritivas, experiências sustentáveis e que apoiem as comunidades locais, entre outras.

Checklist para o bem-estar num evento: o que ter em conta ao planear

- escolher um local com janelas amplas, áreas ao ar livre e luz natural;

- criar espaços de descanso;

- proporcionar atividades ou espaços de contacto com a natureza;

- garantir o isolamento acústico;

- criar fluxos de circulação otimizados, que evitem aglomerações ou longas filas;

- assegurar a acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;

- usar tons suaves e naturais na decoração;

- optar por luzes quentes e reguláveis, que evitam o cansaço visual;

- ter elementos naturais, como plantas, madeira ou pedras na decoração;

- usar a aromaterapia;

- ter música relaxante nos intervalos;

- apostar em refeições saudáveis, sem alimentos processados;

- oferecer opções para pessoas com intolerâncias alimentares;

- ter alimentos naturais e frescos nos coffee breaks;

- garantir a hidratação com água, chás frios;

- incluir na app do evento funcionalidades relacionadas com o bem-estar, como lembretes para hidratação, pausas ou alongamentos.

Fonte: Pesquisa Event Point

© Maria João Leite Redação