Inês Bandeira Guimarães: do sonho de dançar à arte de produzir eventos
24-08-2026
# tags: Eventos , Vida de Eventos
Desde jovem que Inês Bandeira Guimarães sabia que queria pertencer ao mundo dos eventos.
Inês Bandeira Guimarães é hoje Project Manager & Event Producer. Não era este cenário que imaginava nos seus sonhos de menina. De todos os sonhos e deambulações de criança, o que mais a marcou foi o “sonho de dançar”, conta. Cresceu próxima dos mundos da música, dança, teatro, moda, literatura, fotografia e artes visuais, que lhe despertaram a “curiosidade pelo universo dos espetáculos e eventos culturais”. Aos 16 anos “já sabia que queria fazer parte deste mundo”.
Um dia assistiu, junto da régie durante um teste técnico, ao trabalho de diretores, técnicos e artistas. "Nesse instante percebi que queria trabalhar naquele universo e no mundo dos eventos, ainda sem saber exatamente em que função”, afirma.
“Uma sorte que ‘dá muito trabalho’”
Com licenciatura em História da Arte, formação técnica em Produção e Marketing de Eventos e mestrado em Empreendedorismo e Estudos da Cultura, com especialização em Gestão e Marketing Cultural, Inês Bandeira Guimarães iniciou o seu percurso em eventos de música e moda, passou pela televisão e integrou vários projetos de tecnologia, arquitetura e literatura.
Do seu percurso fazem parte projetos como a Vogue Fashion Night Out; a primeira edição do Sol da Caparica; a ModaLisboa; a Web Summit; a Jornada Mundial da Juventude; a Fundação Calouste Gulbenkian, “onde atualmente exerço serviço de direção de cena”; e a Feira do Livro de Lisboa, onde assumiu a direção de produção e a programação musical. Paralelamente, é consultora e formadora para o setor corporativo e instituições de ensino.
Neste caminho, não esquece as pessoas que a inspiraram e apoiaram. “Tem sido um caminho de sorte – uma sorte que ‘dá muito trabalho’. Um percurso feito de paixão, aprendizagem constante e encontros com pessoas que marcaram profundamente o meu caminho. No fundo, tem sido um trajeto guiado por uma convicção simples: o verdadeiro sucesso de qualquer espetáculo ou evento reside sempre nas pessoas que o constroem”, sublinha.
Ver o dia do evento como um 'Happy Day'
É no facto de “os eventos serem fruto de um esforço coletivo humano” que Inês Bandeira Guimarães retira mais prazer nesta área. “Motiva-me sentir que faço parte desse coletivo e inspira-me quando os eventos têm um propósito que acrescenta valor autêntico”, explica.
Normalmente, é a véspera do evento que gera mais pressão. Aí, revê mentalmente todos os tempos e movimentos do dia seguinte, “para garantir que todos os ângulos foram pensados e acautelados em termos de produção”, e para ficar mais disponível para lidar com a pressão e com os imprevistos no dia do evento. Minuciosa, recapitula os pequenos detalhes, “quase como uma bailarina que revê mentalmente cada movimento da coreografia antes de entrar em palco”.
Acima de tudo, “procuro encarar sempre o dia do evento como um ‘Happy Day’”, pois acredita que trabalhar com positividade e alegria torna tudo mais leve e significativo. A receita passa por “encontrar um equilíbrio entre o bem-estar individual, metodologias rigorosas de planeamento e antecipação, e também uma pequena dose de improviso e diversão. E calma, muita calma — ou, pelo menos, sempre que possível”.
Antes de cada evento, Inês Bandeira Guimarães tem alguns hábitos e rituais: comprar ou adotar uma planta para a sala de trabalho; ouvir, a caminho do evento, uma playlist específica; e, antes da abertura de portas, “lavar as mãos, colocar um batom e ir ao exterior apanhar ar puro” – o momento para “respirar, contemplar e desfrutar, ainda que brevemente, da conquista que já é estar ali”. Pensar nos colegas e amigos, no marido e na filha.
“Transformar caos em harmonia”
“Ao longo do tempo fui aprendendo a aceitar os erros como parte do processo”, refere, destacando três aprendizagens. A primeira é não deixar a reflexão para o final dos eventos. “Hoje acredito muito mais na importância de momentos de monitorização e reflexão ao longo do processo, para que os erros possam ser registados e corrigidos em tempo útil”.
Pelo caminho, percebeu que “o perfeccionismo pode ser uma faca de dois gumes” e foi aprendendo “que a exigência e o rigor são importantes, mas nunca devem colocar em causa o bem-estar das equipas”. Por fim, “aprendi a confiar mais nos meus instintos”.
Se Inês Bandeira Guimarães pudesse escolher um superpoder seria o de “transformar caos em harmonia”.
Do kit que a acompanha fazem parte fita gaffer preta, abraçadeiras (“que resolvem quase tudo”), powerbank e, se possível, chocolates e café… “muito café”. Ou seja, “planeamento, bem-estar e improviso”. Mas, continua, “o verdadeiro kit de sobrevivência não está só nos objetos”, mas também nas pessoas.
Gestos de afeto e o humor que ajuda a lidar com o cansaço
Trocas de olhar e sorrisos entre pares, “quando percebemos que contribuímos para o sucesso coletivo”; brindes inesperados; conselhos sábios; mensagens de bom dia, força e amor em post-its; abraços calorosos e fotografias de grupo depois de um evento; gargalhadas coletivas; músicas de playlists de equipa on repeat; a imagem de três mil pétalas lançadas ao ar no Parque Eduardo VII, em Lisboa, são alguns dos muitos momentos que a fazem sentir orgulhosa.
“As memórias que levo com mais orgulho são esses pequenos detalhes fugazes, sensibilidades partilhadas e gestos de afeto com as pessoas com quem vivi – e continuo a partilhar – esta montanha-russa que é trabalhar em eventos e espetáculos”, explica.
Também os momentos hilariantes são muitos, mas há um particularmente marcante. Aconteceu durante a Jornada Mundial da Juventude, num momento onde o cansaço já se fazia sentir. Ao passar no armazém onde estavam guardados vários adereços dos espetáculos, Inês Bandeira Guimarães deparou-se com a equipa de produção e direção de cena a recriar cenas bíblicas, numa “espécie de teatro improvisado inofensivo”.
“Confesso que foi um dos momentos em que mais me ri na vida. Naquele instante percebi que, nos bastidores, saber rir de algo que normalmente seria considerado demasiado sério para brincar pode ser uma verdadeira estratégia de sobrevivência. Na área dos eventos e espetáculos, o humor – às vezes até um certo humor negro – acaba por ser um mecanismo de defesa coletivo que nos ajuda a lidar com o cansaço, a pressão e as expectativas que recaem sobre cada um de nós e como equipa”, defende.
"Mais humanidade, por favor"
Olhando para o futuro da indústria, Inês Bandeira Guimarães gostaria que os profissionais voltassem “a ter mais tempo para criar e organizar eventos, como se fazia anteriormente”. “Imaginação, criatividade, estratégia e planeamento, que são essenciais para o sucesso de qualquer evento, precisam de tempo”, afirma.
Gostaria de ver, no futuro, mais criatividade, programação e desenho de projeto serem concebidos “com um raciocínio e princípio site-specific e trabalho com a comunidade”. Acredita que “os eventos devem ter sempre um propósito autêntico e acrescentar valor à vida das pessoas e à sociedade”, pelo que queria “ver mais narrativas, experiências e políticas de boas práticas verdadeiramente comprometidas com sustentabilidade, inclusão, acessibilidade, bem-estar e defesa de direitos humanos”.
Defende ainda que é na imprevisibilidade do ser humano que “reside grande parte da arte e da magia dos eventos: na intuição, na imaginação, na criatividade, na irreverência e na coragem de assumir riscos. Se passarmos a depender apenas de fórmulas, previsões ou espelhos digitais, corremos o risco de repetir sempre as mesmas soluções”.
E deixa o desejo “que o setor dos eventos evolua para uma cultura mais forte de cuidado”. Como os projetos são feitos por pessoas diferentes, pede mais atenção por parte de todos os que fazem parte do setor “na forma como se relacionam entre si: com respeito, positividade e condições de trabalho dignas, em ambientes que reconheçam a importância do equilíbrio e do bem-estar humano.” Onde é que os eventos podem mudar mais? “Mais humanidade, por favor”, resume.
Aos que estão a chegar à indústria dos eventos, deixa o conselho: “Venham. Venham ser as ‘pessoas certas no sítio certo’” – o que significa ser “aquilo que é necessário para o sucesso do coletivo”, ser “adaptável, prestável e apoiar no que for necessário”, trabalhar em equipa, “com empatia e humildade”. No fundo, “sejam os super-heróis uns dos outros. Confiem em vocês. Confiem uns nos outros”, tornem-se numa comunidade”. E, pelo caminho, “divirtam-se” e “façam magia”.
© Maria João Leite Redação
Jornalista

