Jorge Assis: “Adoro a adrenalina do espetáculo... 1, 2, 3, Go!”

Entrevista

16-10-2026

# tags: Multilem , Eventos , Vida de Eventos

Amante da exploração e de aventuras, Jorge Assis é hoje Creative Director da Multilem.

Quando era criança, Jorge Assis queria ser um grande explorador. “Lia tudo sobre a ficção científica e não perdia um episódio do Cousteau, de modo que tinha o quarto cheio de fotos do espaço, de quasares e das missões do Space Shuttle”, começa por contar, definindo-se como “o nerd que jogava sempre na baliza”.

Inspirado pelo oceanógrafo e explorador francês, passava horas a explorar os bosques que rodeavam a sua casa, regressando apenas ao anoitecer. “Correndo o risco de saudosismos, sinto que há 40 anos, sem telemóveis, nem GPS, a liberdade era muito maior… ou então sou eu que cresci e me tornei um adulto responsável”, refere, sorrindo. No Museu da Marinha, em Paris, deu conta de que muitos jovens franceses não sabem quem é Jacques-Yves Cousteau. “Como é possível que um explorador desta dimensão, e um dos grandes orgulhos de França, seja hoje praticamente desconhecido das gerações mais novas?”, questiona, estupefacto com a descoberta.

O espírito aventureiro acabou por levá-lo aos eventos. “Adoro aventuras: ir a frente, descobrir, aprender e depois ensinar pessoas melhores do que eu a fazer as coisas. Foi assim que cheguei aos eventos”, afirma. O percurso começa como criativo de stands e, mais tarde, na Multilem, “mergulhei de cabeça no primeiro grande evento da empresa”: o Campeonato da Europa de Endurance Equestre. “Um inferno de calor, mosquitos, personagens excêntricos e produtores de cinema muito desafiantes. Foi espetacular. Não trocava essa experiência por nada”, frisa.

“Não existem dois eventos iguais”


Jorge Assis gosta da dinâmica dos eventos e da diversidade que neles se encontram, em várias dimensões. “Adoro a adrenalina do espetáculo... 1, 2, 3, Go! As purpurinas, as pessoas diferentes, as viagens e a oportunidade de estar sempre a aprender. Não existem dois eventos iguais”, adianta.

O diretor criativo acrescenta que “esta profissão permitiu-me ver ao vivo algumas das minhas obras de arte preferidas, como as de William Turner, admirar as Portas de Ishtar ou quase chorar em frente a Acrópole”. Tem sido, por isso, “uma experiência profundamente gratificante, não apenas pelos lugares, mas sobretudo pelas pessoas”, guardando a partilha de experiências, “desde uma dance battle com desconhecidos no Blues Kitchen até assistir a uma cerimónia numa antiga mesquita em Riade, ou colaborar com homens e mulheres de diferentes países e culturas”. Jorge Assis aproveita para garantir que não desiste “enquanto não estiver com a minha equipa a realizar os Jogos Olímpicos de Lisboa”.

“A pressão do evento é a adrenalina que me faz continuar”


Jorge Assis não é muito dado a “signos, superstições ou rituais”, pelo que, antes de cada evento, não tem nenhum hábito em particular. Mas gostaria de ter um superpoder, que poderia ser útil no seu trabalho: “conseguir distender o tempo”. É que, “quando o gerador avaria 15 minutos antes do início do evento”, o relógio não para, exemplifica. “Tic-tac. Tic-tac.”

A pressão típica de um dia de evento pode ser sacudida com um bom planeamento. Aliás, “a pressão do evento é a adrenalina que me faz continuar. Claro que dormir ajuda, mas o que realmente faz a diferença é tudo o que acontece antes do evento: a preparação, a antecipação dos problemas e uma equipa unida”, sublinha. Afinal, “quando sabemos que fizemos o trabalho de casa e temos as pessoas certas ao nosso lado, a pressão deixa de ser um problema e passa a fazer parte do espetáculo”.

O erro que o ensinou mais do que qualquer sucesso foi “correr e não sorrir under pressure”. Passa a explicar: “Foi das coisas mais parvas que já fiz. Quando sorrimos e não corremos, transmitimos mais confiança, não stressamos o cliente e mantemos o discernimento necessário para resolver os problemas. Um obrigado à Doro por me ter chamado a atenção para isso.” Assim, no ‘kit de sobrevivência secreto’ para emergências de última hora leva sempre na algibeira “um comprimido de sorriso”.

“São as dificuldades que nos põem à prova”


Ano atrás de ano, evento atrás de evento, histórias atrás de histórias. São muitas, mas um dos momentos que deixaram Jorge Assis mais orgulhoso foi “contribuir com a minha arte para o sentimento de espiritualidade de milhares de pessoas durante a missa do Papa Bento XVI, em Lisboa. Os sucessos são importantes, mas, na realidade, são as dificuldades que nos põem à prova e acabam por proporcionar os momentos mais marcantes”, defende.

Um outro momento de orgulho ocorreu há uns anos, em Londres. “Quando um fornecedor teve um problema grave, todas as pessoas da Multilem que estavam envolvidas uniram-se e passaram dois dias sem dormir para conseguir terminar um enorme stand destinado a um cliente estratégico”, relembra.

Os senhores idosos – e “extremamente curiosos” – que, nas montagens do altar do Papa Bento XVI, em Lisboa, entravam a socapa para observar o decorrer dos trabalhos protagonizam um dos momentos hilariantes na Vida de Eventos de Jorge Assis. “Sempre que surgia uma abertura de 20 centímetros na vedação, aparecia mais um. Quando a vedação foi finalmente retirada, foi um verdadeiro passeio geral da terceira idade que nem a polícia conseguia travar”, recorda, acrescentando ter visto, recentemente, “uma empresa de construção portuguesa resolver o mesmo problema de uma forma brilhante: inventou uma janela no tapume para observação da obra”.

“Não existem ideias parvas”


Sobre a evolução da indústria e o que se avizinha nos próximos anos, Jorge Assis entende que, “cada vez mais, teremos de perceber o que é verdadeiramente relevante para o público e proporcionar experiências emocionais e memoráveis”. Acredita que “o futuro passa mais por participar do que apenas assistir”. E, para esse cenário, aponta duas ferramentas poderosas: “os metadados, que nos ajudam a compreender melhor o público, e toda a experiência humana acumulada nas pessoas da empresa”.

Às novas gerações do setor, Jorge Assis deixa três conselhos: “Divirtam-se, apreciem o pico de adrenalina e não tenham medo de partilhar ideias.” Afinal, frisa, “não existem ideias parvas – parvas são as ideias que nunca chegaram a ser partilhadas”. E finaliza com uma última dica: “Vejam os Monty Python”.

Embrace banner

© Maria João Leite Redação