F/262: a cultura como ferramenta para impacto ambiental e social
02-06-2026
# tags: Eventos , Cultura , Sustentabilidade
O F/262 – Festival Internacional de Fotografia, que decorre até setembro, nas Caldas da Rainha, tem a sustentabilidade como um dos seus pilares.
Promovendo práticas sustentáveis na produção cultural e literacia ambiental através da fotografia, o evento – que se estende a outras localidades da região Centro – é promovido pela Associação F/SOS – Fotografia, Solidariedade e Obras Sociais.
“Desde o início, a sustentabilidade foi pensada como uma base de decisão e não como uma camada de comunicação. O festival nasce já com dois documentos estruturantes, o Sustainability Handbook e o Inclusion Handbook, que orientam todas as áreas, desde a governança à produção, programação e relação com públicos”, refere João Carlos, diretor e curador do F/262, em entrevista à Event Point.
O responsável explica que o evento funciona também “como plataforma de implementação de um modelo mais amplo, desenvolvido pela associação F/SOS, onde a cultura é utilizada como ferramenta ativa para impacto ambiental e social”. Disso é exemplo o projeto F/262 Circular Culture Lab, que funciona “como um laboratório onde cruzamos fotografia, território e economia circular”.
O festival subscreveu ao Pacto para a Economia Circular no Centro 2026-2027 – uma adesão que “implica compromissos claros ao nível da sensibilização, envolvimento social e implementação de práticas circulares”. No caso do F/262, “isso traduz-se num conjunto alargado de ações, entre 20 e 40 iniciativas, que incluem exposições, programas educativos, workshops e intervenções no território. Estas ações procuram não só reduzir o impacto do festival, mas também contribuir ativamente para a literacia ambiental e para a mudança de comportamentos”, acrescenta.
Funcionar como um sistema circular visível
Em termos de sustentabilidade, o F/262 está a trabalhar numa abordagem integrada que inclui várias medidas para a redução do seu impacto ambiental, entre as quais a reutilização e circularidade de estruturas expositivas e cenográficas; e o uso de materiais reciclados ou provenientes de resíduos, “incluindo soluções inovadoras como ‘madeiras’ feitas a partir de plástico reciclado e tecidos derivados de lixo marinho”.
Outras medidas passam pela impressão sustentável com papéis certificados e tintas ecológicas; pela redução de materiais impressos, “privilegiando a comunicação digital”; pelo incentivo à mobilidade de baixo impacto, “com foco em parcerias regionais e redução de transporte de longa distância”; e ainda pela gestão responsável de resíduos durante a montagem, a operação e a desmontagem, adianta o responsável.
No capítulo da economia circular, João Carlos conta que estão previstos fotolivros e edições com materiais reaproveitados, incluindo capas feitas a partir de desperdício; a construção de câmaras fotográficas com lixo recolhido em ações ambientais; a reutilização entre edições de materiais expositivos; e o desenvolvimento de soluções de design expositivo baseadas em reutilização e modularidade. “A ideia é que o festival funcione como um sistema circular em prática, visível para o público.”
De acordo com João Carlos, “o principal desafio é operacional e estrutural”, uma vez que “as soluções mais sustentáveis nem sempre são as mais simples ou as mais económicas no curto prazo”, além de tudo isto implicar “alinhar múltiplos agentes, produção, artistas, parceiros e público, em torno de uma lógica comum”. O diretor do F/262 refere ainda existir “um desafio cultural, no sentido de passar de uma lógica de consumo para uma lógica de responsabilidade partilhada”.
Construir em conjunto cultura, sustentabilidade e território
Envolver a comunidade, as instituições e as empresas locais é algo “central no projeto e acontece de forma ativa, contínua e participativa”, e é feito trabalho direto com escolas, associações, municípios, juntas de freguesia e empresas da região, “integrando-os no desenvolvimento das atividades e não apenas como público”.
“Um exemplo concreto são as ações ‘Cuidar as Margens’, onde já recolhemos mais de 550 kg de resíduos, com a participação de mais de 100 voluntários. Estas ações estão também integradas no Plogging Challenge Portugal 2026, ligando o festival a uma rede nacional de iniciativas de sustentabilidade e cidadania ativa”, afirma João Carlos.
Em paralelo, são desenvolvidos projetos a longo prazo, como o Importa – Portraits of Territory and Memory, “um projeto participativo que trabalha diretamente com as comunidades locais através da fotografia, arquivo e memória”, que envolve “a criação de um arquivo fotográfico do território, a produção de publicações por freguesia, a recolha de arquivos familiares e um micro museu itinerante que leva a experiência cultural diretamente às pessoas, incluindo populações com menor acesso a equipamentos culturais”.
João Carlos acrescenta que estão a ser desenvolvidas exposições em parceria com o comércio local, ocupando montras de lojas e levando o festival para o espaço quotidiano. Ao nível de parcerias, “trabalhamos com empresas e projetos alinhados com os nossos valores”, frisa.
Além disso, “estamos a criar uma rede de colaboração com outros festivais e associações, permitindo a circulação de exposições entre diferentes eventos”, o que “reduz a necessidade de produção constante de novas estruturas e conteúdos, aumenta a vida útil dos projetos expositivos e promove um ecossistema cultural mais sustentável e colaborativo”.
No fundo, “mais do que envolver comunidades, o objetivo é trabalhar com elas e com os nossos parceiros, criando um modelo onde a cultura, a sustentabilidade e o território se constroem em conjunto”.
“Queremos contribuir para práticas culturais mais conscientes”
O F/262 é um festival internacional de fotografia e esta “tem a capacidade de tornar visível o que muitas vezes é invisível”. No contexto do festival, a fotografia “funciona como ferramenta de reflexão, consciência e transformação, ligando estética, território e responsabilidade social”.
Além das exposições fotográficas, o público vai poder participar em ações de intervenção direta no território, como a ‘Cuidar as Margens’, em programas educativos e workshops (NextGen), em laboratórios experimentais, como o Viva Lab, e em projetos de reutilização criativa, que inclui a construção de objetos e dispositivos a partir de resíduos. “A intenção é envolver o público de forma ativa e participativa”, sublinha. E o programa é vasto.
A organização prevê medir o impacto ambiental do festival, com ferramentas específicas do setor, como a plataforma da Gallery Climate Coalition, que permite acompanhar emissões, resíduos e mobilidade. “Este processo será contínuo e integrado nos relatórios de sustentabilidade que pretendemos publicar”, explica o responsável.
Para João Carlos, a primeira edição do evento “é um momento de afirmação de um modelo”. “Mais do que dimensão, interessa-nos coerência e impacto. Queremos demonstrar que é possível desenvolver um festival internacional que seja simultaneamente relevante do ponto de vista cultural e responsável do ponto de vista ambiental e social”, refere.
Como legado, a organização gostaria de “deixar um modelo replicável de festival cultural sustentável, mas também um impacto concreto no território”. “Mais do que um evento, queremos contribuir para práticas culturais mais conscientes, com efeitos duradouros ao nível da educação, participação e comportamento”, conclui.
© Maria João Leite Redação
Jornalista

