Cláudia Veiga: “Adoro o que faço e com quem faço”
22-04-2026
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Cláudia Veiga, fundadora e CEO da Smile, traça um percurso marcado pela paixão pelos bastidores dos grandes eventos.
A entrada na área dos eventos aconteceu “um bocadinho por acaso, no final dos anos 90”, ainda durante a faculdade, quando sentia que o seu futuro não passaria por “uma formação mais clássica”. A Expo’98, em Lisboa, foi decisiva, deixando-a “completamente fascinada com a dimensão, produção e dedicação do staff internacional”, e convicta de que queria “ser um deles” e “fazer parte disto tudo”.
Ao candidatar-se como hospedeira, Cláudia Veiga viveu a experiência com entusiasmo. No entanto, com o fim da Expo, seguiu-se uma “ressaca coletiva”, marcada pela ausência de novos eventos de grande escala em Portugal. Sentiu que não podia ficar parada e foi estudando hospitalidade e desenvolvendo competências ligadas aos eventos e ao espetáculo.
Até que, em 2003, surge o convite para integrar a produção do espetáculo de encerramento do Euro 2004, no Estádio da Luz. “Os meus olhos brilharam de imediato e disse logo que sim”, recorda. Lembra o impacto do profissionalismo da produtora holandesa, num processo exigente que incluiu três meses de ensaios. Perante a exaustão da equipa, sentiu despertar em si a capacidade de “segurar equipas, passar-lhes motivação e ferramentas para nunca desistirem e darem sempre o melhor delas”. No final, teve a certeza de que o seu caminho seria “mais pelos bastidores e menos pelo palco”.
“Esse seria o primeiro dia do resto da minha vida”, afirma Cláudia Veiga, que, depois de passar por duas agências, fundou, em 2008, a Smile, uma agência de staff especializado para eventos. “Hoje, a Smile tem 18 anos e tenho um enorme orgulho do nosso percurso e nas pessoas que já tocámos”, refere.
“Sou muito atenta a tudo o que me rodeia”
“Os eventos têm-me dado pessoas incríveis”, afirma. Em criatividade e rigor artístico, destaca como mentor Arcanjo Ratibo, coreógrafo e diretor de arte de espetáculos e animação artística em eventos, com quem aprendeu que “a nossa comunicação não verbal tem muito impacto nos outros”, que “o impacto visual é a primeira impressão que fica num evento” e que “o entusiasmo e a energia que colocamos em tudo o que fazemos nos eventos contagia os outros”.
Ao nível operacional e de agregação de equipas especializadas, tem em Pedro Rodrigues, diretor da Desafio Global, um “guru inquestionável”. “O seu bom senso em situações tensas, a capacidade de raciocínio lógico em momentos-chave e a maneira como encontra sempre a melhor solução (em tempo recorde) para cada desafio, inspira-me e ensina-me todos os dias”, conta.
Quando precisa de uma solução inovadora e criativa, a inspiração também chega “no silêncio, nas coisas simples da vida, na constante pesquisa e na minha própria natureza observadora. Sou muito atenta a tudo o que me rodeia”. Quando não há tempo para maturar ideias, “procuro ajuda na minha equipa, sai sempre algo interessante num bom ‘bater bolas’ com as pessoas certas”.
“A experimentação fascina-me”
Embora o trabalho em eventos seja “bastante intenso e com períodos sem folgas”, por vezes sai do local do evento com mais energia do que quando chegou. “E isto diz muito sobre o bichinho deste setor”, indica. “Adoro o que faço e com quem faço. Gosto mesmo muito do processo criativo e da produção pré-evento, dos dias serem todos diferentes, com equipas altamente motivadas e entusiastas”, frisa.
A procura de soluções para superar expectativas é uma motivação diária. “A experimentação fascina-me”, conta Cláudia Veiga, filha de um cientista, de quem recebeu o estímulo pela curiosidade, a capacidade de pesquisa e a força de seguir pelo caminho em que acredita – também a ideia de que “o pensar diferente nem sempre é mau, poderá até ser o meu ‘super power’”.
A maturidade, a experiência e um bom manual de operações trazem-lhe serenidade para o dia do evento. “Estou 100% comprometida com o evento desse dia e totalmente focada no momento presente”, com a convicção de que ela e a equipa acrescentam. “A ansiedade bloqueia-nos. Como podemos estar ágeis e preparados para responder a imprevistos num estado ansioso? As piores experiências que tive em eventos foi com lideranças ansiosas e inseguras”, recorda.
Antes de cada evento, Cláudia Veiga agarra-se a pequenos e grandes truques: “Uma boa noite de sono é inegociável, chego sempre antes de todas as equipas, envolvo-me com o espaço vazio e em silêncio e depois recebo cada elemento de staff com um abraço e uma palavra de entusiamo.”
Momentos marcantes, lições e uma “histeria coletiva”…
São muitos os eventos marcantes no seu percurso, além dos eventos fora da caixa que a continuam a surpreender. Ainda assim destaca dois: o Euro 2004, “por ter feito parte de um evento que parou o país e tudo foi tao memorável, único e intenso”; e um evento internacional da Toyota em Lisboa, em 2024, numa colaboração com a Desafio Global – 44 eventos em nove dias com cerca de 3.100 convidados de 43 nacionalidades –, “onde a complexidade, o rigor técnico e a intensidade de horários marcaram-me para sempre”.
Cláudia Veiga recua até 2014 para lembrar o maior desafio que enfrentou. Aquando da Final da Liga dos Campeões em Lisboa, foram contratadas 150 hospedeiras pela Heineken, que ficou responsável pelo fardamento, que a agência teria de entregar. O problema foi quando perceberam que seriam quatro fardas diferentes, num total de cerca de 600 peças. “Praticamente não dormimos nos dias anteriores ao evento para implementarmos um plano organizado de entregas”, lembra.
Não bastasse o stress da operação logística, tinha sido implementado um “perímetro de segurança sem precedentes em Portugal”, com bloqueios de tráfego. “Ficámos em pânico”, pois tinham de chegar a equipa para entregar as fardas. A situação foi resolvida com uma mota/estafeta, que fez inúmeras viagens até tudo ser entregue. “No fim, tudo correu bem, mas serviu-nos de lição”: o que foi “uma cortesia para facilitar o nosso cliente, tornou-se num pesadelo para nós, difícil de superar, e poderia ter comprometido todo o nosso profissionalismo”.
Nem só de stress se fazem os eventos, pois há muitas histórias hilariantes. Cláudia Veiga recorda uma em 2023, quando o Convento do Beato, em Lisboa, acolheu um evento da Swatch Internacional. No briefing geral, a equipa recebeu as listas de convidados, onde constava o elenco de ‘Emily in Paris’, série popular da Netflix. A revelação provocou uma “histeria coletiva” entre a equipa… O momento, embora divertido, exigiu rapidamente autocontrolo. “Afinal, estávamos a trabalhar e o profissionalismo e a discrição têm de falar mais alto, sempre”, conta.
“Cada evento é uma escola”
Cláudia Veiga vê o futuro do setor “em crescimento e transformação, impulsionado por tecnologia, sustentabilidade e um maior reconhecimento internacional”, sendo, contudo, necessário “adaptar continuamente a novas expectativas, desafios operacionais e práticas inovadoras”. O caminho, acredita, passa por “apostar em experiências personalizadas e envolver emocionalmente o participante”.
A quem chega por agora à indústria dos eventos, Cláudia Veiga refere que é preciso ter noção de que, embora apaixonante, esta é uma área “muito intensa e desgastante”. “Há muito trabalho invisível em todo o processo. Há muito pouco glamour nos bastidores dos eventos. Só fica, quem, de facto, ama esta área verdadeiramente”, frisa, aconselhando a aprenderem “técnicas pessoais para aguentarem os dias longos e gerir o cansaço mental”.
Defende o aprender, fazendo, de preferência um pouco de tudo, e lembra que “cada evento é uma escola” e que “quanto mais fizerem mais preparados estão”. Humildade, proatividade e desenvolvimento de soft skills (organização, planeamento, pontualidade e relações interpessoais) são apontados como essenciais, tal como a construção de uma relação de confiança com clientes e fornecedores, numa área onde “passamos de bestial a bestas num ápice”. O conselho final é simples: manter-se atualizado, observar outros profissionais, seguir tendências e aprender tanto com sucessos como com fracassos.
© Maria João Leite Redação
Jornalista
